quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

De sangrar os ouvidos

A alcunha não é pequena. Florence Foster Jenkins é simplesmente a pior cantora de todos os tempos. A fama surgiu nos anos 40. Florence fazia um recital anual no Hotel Ritz e chegou a lotar o Carnegie Hall em uma histórica apresentação, aos 76 anos, um mês antes de sua morte. Sim, os ingressos para suas apresentações eram disputados ferozmente. Não era em busca de boa música que iam os espectadores, mas atrás de uma boa cota de gargalhadas. Conta-se que algumas pessoas tiveram de sair carregadas do Carnegie Hall passando mal, de rir.

Florence não era humorista, o fato é que ninguém nunca teve coragem de dizer como ela era ruim. E a mentira a fez feliz como a verdade jamais faria. Herdeira de banqueiro milionário, Foster Jenkins se considerava uma grande diva e consagrou a fantasia alada de 'anjo iluminado', que costumava usar em algumas apresentações.

Abaixo um worst of da soprano. É de fazer o Edson Cordeiro se revirar no túmulo.



Diva descansando a voz



Pedro Grossi

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Carro

Nunca liguei muito para carros e sou um verdadeiro néscio no assunto. Mas ultimamente tenho me voltado a essas latas. Mas carros, mesmo, não compensações contemporâneas para disfunções sexuais da meia idade.

Assistindo a “Vicky Cristina Barcelona” ou, lembrando de cabeça, às reprises do infame e hilário “Quanto Mais Idiota Melhor 2” e “Vanilla Sky”, só sou olhos para eles (minto quanto ao primeiro). Os vintages. Essas maravilhas sobre rodas que movimentam um mercado inundado por uma horda de aficionados asfalto afora.

O que são Civics, Corollas e Vectras comparados à beleza dos esportivos da segunda metade da década de 60 e início da seguinte? Uma trolha de lixo?

Uma breve volta no Google e encontro esta lista. Relação de 50 memoráveis participações automotoras no cinema. Com certeza não é a única do gênero espalhada por aí, mas é de encher olhos e bocas. Só pecaria por não citar, por motivos óbvios, a linhagem brazuca Malzoni/Puma.


Um dia.
Leonardo Rodrigues

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cruzeiro - 88 anos

Nelson Rodrigues (Jornal dos Sports, 09 dezembro 1966) “Depois da vergonha e da frustração da Copa do Mundo, nenhum acontecimento teve a importância e a transcendência da vitória de anteontem. Por outro lado, não foi só a beleza da partida, ou seu dramatismo incomparável. É preciso destacar o nobre feito épico que torna inesquecível o feito do Cruzeiro. Não tenhamos medo de fazer a sóbria justiça: aí está, repito, o maior time do mundo.”

 O feito épico a que se refere o dramaturgo é o título brasileiro de 66. Um sonoro 6 a 2 em um Mineirão repleto e um 3 a 2 (de virada) em uma tempestuosa São Paulo, contrariando todos os prognósticos da imprensa nacional que apostava em um troco a altura do então melhor time do mundo. A vantagem de dois gols que os santistas abriram no primeiro tempo até fez crível a previsão, mas a virada não tardou. Como conta o craque Tostão, que ainda perdeu um pênalti antes de fazer um gol de falta naquela partida: “Se houvesse mais cinco minutos de jogo faríamos 6 x 2 de novo, tamanho descontrole emocional do Santos”. Aos que dizem que a conquista da Taça Brasil não vale como Campeonato Brasileiro, respondo: pormenores! Essa não é a questão. O ponto é que indiscutivelmente após o nascimento daquele time mágico o futebol mudou de eixo. O então torneio Roberto Gomes Pedrosa Rio-São Paulo virou Robertão e abraçou times mineiros, sulistas e nordestinos. Não dava mais pra ignorar a revolução iniciada em Minas. Nos limites do estado, a conquista, aliada ao surgimento do Mineirão um ano antes, representou uma nova era do futebol mineiro. Os dois times então mais populares da cidade assistiram a um crescimento estrondoso da torcida dos rivais celestes, capitaneada pelos lances geniais de Tostão, Evaldo e Dirceu Lopes. Foi ali também que nasceu a maneira cruzeirense de jogar futebol. Citando Tostão mais uma vez: “Enquanto os outros times eram prosa,o Cruzeiro era poesia”.

 A história, no entanto, começara 45 anos antes, nos arredores do Barro Preto. A representativa colônia italiana de Belo Horizonte marcou sua presença na cidade com a fundação da Sociedade Esportiva Palestra Itália. Forçado a mudar de nome por determinação do governo varguista, o clube chegou a se chamar Ipiranga. A intenção era buscar algo que representasse o país que tão bem acolhera aquele povo. Daí a sugestão do nome ser o mesmo do rio que sediou o célebre grito de independência. Mas o batismo definitivo só viria depois de uma inspiração buscada no céu.  O Cruzeiro do Sul, cantado no hino e desenhado na bandeira nacional, foi também guia do italiano Américo Vespúcio em sua expedição rumo à descoberta da América. Aquele era o símbolo perfeito para representar a transcendente e eterna ligação entre os dois povos.

 Dez anos e dois vice-campeonatos brasileiros depois, veio a conquista da América. A geração era outra, mas igualmente espetacular. Nelinho, Palhinha, o forasteiro Jairzinho. A vitória sobre o River Plate, em um jogo no Chile, apresentou o Cruzeiro ao continente. O Boca ainda ganharia de forma polêmica um campeonato continental em cima do Cruzeiro antes que começasse o inferno astral dos anos 80. Na década de 90, o apetite voltou: duas Supercopas dos Campeões da América. A última delas, um épico 3 x 0 sobre o mesmo River. A busca do placar quase impossível (necessário para a conquista) desnorteou a passional imprensa argentina que deu ao time mineiro a alcunha de La Bestia Negra. O título continental só voltaria em 97, naquele chute benditamente torto do Elivelton.

 Pelo Brasil, o Cruzeiro continuava a desafiar os catedráticos da imprensa nacional com conquistas espetaculares da Copa do Brasil. Uma seguida da outra. Quatro, no total. O título brasileiro veio oficialmente só em 2003, mas da melhor forma possível. Um futebol de encher os olhos e as redes dos adversários, bem ao estilo cruzeirense de jogar.

 Algumas derrotas também merecem entrar na história do clube. A final do mundial de 76 contra o Bayern, de Beckenbauer e Gerd Müller, é considerada por muitos como o melhor jogo da história do Mineirão, mesmo em um empate sem gols. Na partida de volta, em uma gélida Munique sob neve, o time alemão venceu por dois a zero. O vice-campeonato brasileiro de 75 contra o Inter de Falcão e Figueroa, foi responsável por alguns dos melhores momentos que o futebol brasileiro já viu.

A tônica é essa. Em perdendo ou ganhando, sempre pela poesia. E que outros tantos belos momentos estejam por vir.

Pedro Grossi

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Capitu


Diz Affonso Romano de Sant'Anna sobre Luiz Fernando Carvalho:"Ele consegue levar para a tela uma das coisas mais imponderáveis da narrativa: o maravilhoso."
Dizer mais o que?

Pedro Grossi

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Bandeirantes, o canal do....



Cléo Brandão + Ecstasy = hum...


Leonardo Rodrigues

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por que futebol?


Vinte e dois e uma bola. É quase ultrajante de tão simples. E quase quântico de tão complexo. A alegoria, sublimação, da guerra. Não do bem contra o mau, mas do bem e do mau contra a mediocridade da vida, dos nós de gravata dados a contragosto, do engarrafamento nosso de cada dia, das risadas enlatadas e dos choros entubados. Do sentimento programado e da emoção corporativa. O momento de êxtase, uma visita às origens do instinto, da racionalidade zero e da paixão em estado de arte. O yin-yang das massas.

Amigos forjados pelas cores da camisa e não pela justeza do caráter ou nobreza das idéias comuns assistem à batalha campal. Pouco podem fazer se não entregar sua alma àquele ideal. E elevá-la aos céus ou rebaixá-la às profundezas em questão de segundos. Em qualquer caso, no entanto, já se fez o bem de tirar o espírito da fria zona cinzenta da rotina. Condicionar sua felicidade à imprevisibilidade do jogo. Não a felicidade de verdade, mas a subfelicidade, equivalente sentimental do subconsciente. A felicidade instintiva e irracional de ver vinte e dois e uma bola e as possibilidades infinitas que essa premissa traz.

Se fosse uma música seria Jazz e se fosse arte seria Teatro. Porque é escrito ali, diante dos olhos, com enredos intrincados ou diretos, com os fracos ganhando dos fortes, os fortes ganhando dos fracos, sem politicamente corretismos, sem didatismos, sem logicismos. É onde, ainda que por um breve lampejo, se vê a vida acontecer.

Por isso, futebol.


Pedro Bial... ops, Grossi

domingo, 2 de novembro de 2008

História feita

Vejo Fórmula 1 desde quando Bush pai e Saddam eram amigos. E confesso, nunca vi nada como hoje. Nada. Nunca vi uma decisão dessas. Nunca me senti tão inconfortável nem demorei tanto para digerir um resultado.

Parece mais que os demônios da F1 fizeram questão de roteirizar o tipicamente irroteirizável.

Após um belo (é gosto dizer) campeonato, criaram um script de drama complexo, capiciosamente emocionante, e que envolveu, além dos protagonistas de praxe, uma gama de improváveis personagens.

Na prova, quando o previsível se acomodou, a exemplo da Bélgica, a garoa paulistana - tipicamente "chuva" nos domínios de Interlagos - caiu no momento mais crucial que poderia, bem nos giros finais.

No segundo aguaceiro da tarde, um Hamilton quase irreconhecível deixava escapar entre os dedos, no embate com Vettel, um título mais uma vez sacramentado. Incrível.

Ao fechar em quarto, o mancebo alemão, espetacular, foi de novo brilhante, pela última vez a bordo de sua Toro Rosso (uma ex-Minardi, frise-se). Deixou o inglês no encalço, ensadecido na última volta. Nunca vibrei tanto com uma ultrapassagem.

O outro tudesco, Glock, calçado para o seco, pouco tinha a fazer a não ser ceder ao ataque da dupla. Mas tinha que ser na última curva? Custava tracionar e dobrar o Café? Apenas isso, deixando o entrevero para um já inútil S do Senna?

Lewis levou e Massa ganhou, pela segunda vez no Brasil (igualando a trinca de campeões do País) e pela primeira, de fato, no molhado. Foi exemplar, correu com gana de campeão. Deu dó a chegada aos boxes. Mais dele do que da festa antecipada do QG familiar.

E é justamente essa perplexidade ante ao imponderável que faz dessa brincadeira tão especial e apaixonante. Só quem conhece sabe.

Passada a frustação de início, sinto-me privilegiado por ter assistido a mais um ano de treinos e corridas. Espero alimentar o vício por muito mais tempo. De preferência, até bem depois de Obama e Osama relevarem consoantes e apertarem as mãos.

Que 2009 chegue amanhã.


Leonardo Rodrigues