
Nelson Rodrigues (Jornal dos Sports, 09 dezembro 1966) “Depois da vergonha e da frustração da Copa do Mundo, nenhum acontecimento teve a importância e a transcendência da vitória de anteontem. Por outro lado, não foi só a beleza da partida, ou seu dramatismo incomparável. É preciso destacar o nobre feito épico que torna inesquecível o feito do Cruzeiro. Não tenhamos medo de fazer a sóbria justiça: aí está, repito, o maior time do mundo.”
O feito épico a que se refere o dramaturgo é o título brasileiro de 66. Um sonoro 6 a 2 em um Mineirão repleto e um 3 a 2 (de virada) em uma tempestuosa São Paulo, contrariando todos os prognósticos da imprensa nacional que apostava em um troco a altura do então melhor time do mundo. A vantagem de dois gols que os santistas abriram no primeiro tempo até fez crível a previsão, mas a virada não tardou. Como conta o craque Tostão, que ainda perdeu um pênalti antes de fazer um gol de falta naquela partida: “Se houvesse mais cinco minutos de jogo faríamos 6 x 2 de novo, tamanho descontrole emocional do Santos”. Aos que dizem que a conquista da Taça Brasil não vale como Campeonato Brasileiro, respondo: pormenores! Essa não é a questão. O ponto é que indiscutivelmente após o nascimento daquele time mágico o futebol mudou de eixo. O então torneio Roberto Gomes Pedrosa Rio-São Paulo virou Robertão e abraçou times mineiros, sulistas e nordestinos. Não dava mais pra ignorar a revolução iniciada em Minas. Nos limites do estado, a conquista, aliada ao surgimento do Mineirão um ano antes, representou uma nova era do futebol mineiro. Os dois times então mais populares da cidade assistiram a um crescimento estrondoso da torcida dos rivais celestes, capitaneada pelos lances geniais de Tostão, Evaldo e Dirceu Lopes. Foi ali também que nasceu a maneira cruzeirense de jogar futebol. Citando Tostão mais uma vez: “Enquanto os outros times eram prosa,o Cruzeiro era poesia”.
A história, no entanto, começara 45 anos antes, nos arredores do Barro Preto. A representativa colônia italiana de Belo Horizonte marcou sua presença na cidade com a fundação da Sociedade Esportiva Palestra Itália. Forçado a mudar de nome por determinação do governo varguista, o clube chegou a se chamar Ipiranga. A intenção era buscar algo que representasse o país que tão bem acolhera aquele povo. Daí a sugestão do nome ser o mesmo do rio que sediou o célebre grito de independência. Mas o batismo definitivo só viria depois de uma inspiração buscada no céu. O Cruzeiro do Sul, cantado no hino e desenhado na bandeira nacional, foi também guia do italiano Américo Vespúcio em sua expedição rumo à descoberta da América. Aquele era o símbolo perfeito para representar a transcendente e eterna ligação entre os dois povos.
Dez anos e dois vice-campeonatos brasileiros depois, veio a conquista da América. A geração era outra, mas igualmente espetacular. Nelinho, Palhinha, o forasteiro Jairzinho. A vitória sobre o River Plate, em um jogo no Chile, apresentou o Cruzeiro ao continente. O Boca ainda ganharia de forma polêmica um campeonato continental em cima do Cruzeiro antes que começasse o inferno astral dos anos 80. Na década de 90, o apetite voltou: duas Supercopas dos Campeões da América. A última delas, um épico 3 x 0 sobre o mesmo River. A busca do placar quase impossível (necessário para a conquista) desnorteou a passional imprensa argentina que deu ao time mineiro a alcunha de La Bestia Negra. O título continental só voltaria em 97, naquele chute benditamente torto do Elivelton.
Pelo Brasil, o Cruzeiro continuava a desafiar os catedráticos da imprensa nacional com conquistas espetaculares da Copa do Brasil. Uma seguida da outra. Quatro, no total. O título brasileiro veio oficialmente só em 2003, mas da melhor forma possível. Um futebol de encher os olhos e as redes dos adversários, bem ao estilo cruzeirense de jogar.
Algumas derrotas também merecem entrar na história do clube. A final do mundial de 76 contra o Bayern, de Beckenbauer e Gerd Müller, é considerada por muitos como o melhor jogo da história do Mineirão, mesmo em um empate sem gols. Na partida de volta, em uma gélida Munique sob neve, o time alemão venceu por dois a zero. O vice-campeonato brasileiro de 75 contra o Inter de Falcão e Figueroa, foi responsável por alguns dos melhores momentos que o futebol brasileiro já viu.
A tônica é essa. Em perdendo ou ganhando, sempre pela poesia. E que outros tantos belos momentos estejam por vir.
Pedro Grossi