sábado, 20 de outubro de 2007

Cheiro de naftalina

Antes dos sete anos eu já tinha o costume de acompanhar corridas. Mas foi com uma no Brasil que o hábito virou religião: Interlagos ´91. Até àquela altura meu favorito era o Prost e dificilmente trocava o Lego ou o Meu Primeiro Gradiente por automóveis rodando em círculos.

Depois daquilo virei seguidor fiel de Senna e de todos os outros brasileiros. Demorei a tomar juízo.

Apesar da fanfarronice galvônica e da polêmica sobre quantas marchas Ayrton havia realmente perdido, foi uma prova fantástica (memória afetiva rules!). Ele vencia em casa pela primeira vez, a duras penas. Completou exausto, com uma verdadeira pane no sistema nervoso, mal se aguentava em cima do pódio.

Lembro-me de assistir no quarto dos meus pais, onde ficava a única TV da casa - uma Panacolor National modelo 79, a cores, moderna para época. Fiquei o tempo todo sentado sobre a cama áspera, semi-rasgada, de cheiro azedo e sem a colcha que provavelmente estava pendurada no varal. Nem me importei com o resto.



Leonardo Rodrigues

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Faz falta

O GP de Adelaide do último post foi histórico não apenas pelo embate de prender a respiração. Muitos podem não se lembrar mas aquela foi a despedida da Lotus negra, patrocinada pelos cigarros John Player Special e de belíssimos filetes em dourado. Uma parceria vitoriosa que durou uma década e meia e que teve início com Emerson Fittipaldi em 1972. Carros pretos como aqueles nunca haviam existido e, segundo o próprio Emo, a cor era um artifício que ludibriava a noção de profundidade que o piloto da frente tinha ao olhar pelo retrovisor.

Como eram bonitas essas baratas da Lotus.

Uma pena que nos anos seguintes, após amarelar com a Camel e se transformar num varal de marcas sem qualquer identidade, o time tenha entrado numa cruel curva descendente, jogando a toalha no final de 94.

Na foto, os segundos iniciais da prova que marcou a primeira vitória de Ayrton Senna na F1, no molhado Estoril de 85. Na ponta, a dupla da equipe de Colin Chapman: Senna e o ótimo Elio De Angelis. Curiosamente ambos viriam a morrer na pista. O italiano no ano seguinte, já pela Brabham, em testes privados no circuito de Paul Ricard. O brasileiro, claro, todos devem se lembrar.



Leonardo Rodrigues

21 anos

Fórmula 1, semana de Grande Prêmio do Brasil. Dedicarei parcos posts a esse esporte que muitos ainda lançam dúvidas se trata-se mesmo de um esporte. No ensejo da decisão tripla de mundial, volto à última vez em que isso aconteceu.

Adelaide, GP da Austrália de 1986. Nigel Mansell chegava à etapa derradeira com oito pontos sobre o companheiro de equipe de Williams, Nelson Piquet, e sete à frente do então atual número 1 Alain Prost, da Mclaren.

Mansell precisava apenas de um terceiro lugar para ser campeão pela primeira vez. Dada a largada, o Leão, logo ele, adotou uma tocada conservadora como há muito não se via. Só não contava que, na volta 65, fosse "premiado" com o pneu traseiro esquerdo estourado em plena reta oposta. Cena histórica. Adeus a um campenato praticamente ganho e que seria de Piquet caso não amargasse um pit-stop a poucas voltas do fim.

Apesar da superiodade dos carros de Frank Williams no ano, Prost vencia e tornava-se bi-campeão.



Tantas variáveis em uma só corrida é de pasmar quem está acostumado ao comboio aerodinâmico no qual a categoria se transformou.



Leonardo Rodrigues

domingo, 14 de outubro de 2007

Quer pagar quanto?



A impressão que tenho ao ouvir um disco do Radiohead é que estou em contato com a música do futuro, ou de um mundo paralelo. É como explorar o universo apocalíptico que a própria banda criou em 'OK Computer'. Um universo complexo e repleto de texturas que vai de uma alegria inocentemente infantil à profunda melancolia. Quando a banda lançou 'OK Computer', em 1997, a mensagem era de um fim catastrófico; em vez disso o que houve foi um grande (re)começo. 'Kid A', 'Amnesiac' e 'Hail to the thief' apontaram um caminho alternativo para a música. Mais do que indicar, o Radiohead explorou essas novas possibilidades criativas. Não que a utilização de elementos eletrônicos no rock fosse uma novidade, mas nunca essa fusão havia ocorrido de forma tão natural e com resultados tão originais. O que o Radiohead conseguiu foi criar uma linguagem musical que traduziu e representou os sentimentos de uma geração com muita informação e pouca formação. Na contramão dos que apenas exaltavam as maravilhas tecnológicas da modernidade, a banda lembrou da angústia que isso pode trazer e de que a solução, se é que ela existe, pode não estar nas 'facilidades' do mundo moderno. Cada geração teve seus representantes (de Led à Nirvana) e quem melhor representa o período pós-internet é o Radiohead.

'In Rainbows', parece continuar a história iniciada em 'Ok Computer'. Uma história que, espero, ainda está longe do fim. Em '15 steps' e 'Bodysnactchers', as duas músicas que abrem o CD (ou arquivo mp3), Phil Selway emula na bateria uma batida eletrônica empolgante que logo se reconhece como Radiohead. 'Nude', que pode ser considerada a 'balada' do disco, mistura a atomosfera de 'Exit music: for a film' e a melodia de 'How to disappear completly' pra criar uma canção que desde já entra pro hall de clássicos da banda. 'Weird fishes/Arpeggi' tem Phil Selway trabalhando mais uma vez com constantes mudanças de tom e de clima. Entra fácil na lista de preferidas. Em 'All I need', uma base de xilofones, um baixo grave, um teclado muito bem colocado e uma bateria e uma guitarra que resolvem gritar no final da música. Em 'Faust Arp' Thom Yorke parece ditar uma profecia com um violoncelo ao fundo, algo parecido com a música 'A Wolf at the door' que fecha 'Hail to the thief'. 'Reckoner' tem quebradas de ritmo com backing vocals e mais Phil Selway emulando batidas eletrônicas. 'House of cards' abre a seqüência final de 'In Rainbows' com Ed O'brien fazendo uma base contida na guitarra enquanto Thom Yorke canta com a voz e a melodia que fazem dele um dos vocalistas mais importantes da atualidade. 'Jigsaw falling into place' reúne na mesma música tudo o que o Radiohead tem de melhor: ritmo (e quebradas de ritmo), melodia e a criação de uma atmosfera única. A melhor faixa do CD. O encerramento fica por conta de 'Videotape' com apenas um teclado e Thom Yorke. Mais instrumetal e menos eletrônico, embora a sonoridade continue moderna, o Radiohead mantém o nível de sua discografia praticamente irretocável e se consolida como a banda mais importante da atualidade.

A espera de 4 anos pelo novo disco acabou com o anúncio da banda, em seu site oficial, de que o trabalho estava finalizado e de que ele seria disponibilizado para download no próprio site oficial. O preço? O valor que você quiser pagar (!). Basta cadastrar o email no site para receber o link de acesso. Sem gravadoras sanguessugas pra intermediar o processo. A modernidade também traz coisas boas, afinal.

www.radiohead.com


Pedro Grossi

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Fuck the beauty contests


Estar desempregado tem algumas vantagens. Em plena quinta-feira à tarde comprei uma bandeja de danoninho e aluguei um filme que há muito queria assistir: "Little Miss Sunshine". Aliás, o tal do "little" danone é uma coisa que tinha tudo pra ser ruim, mas que é bom pra cacete. Felizmente, esse queijo sabor morango ganhou o simpático e mais convidativo nome de queijo petit suisse. Agora, voltando ao filme: O convívio insuportável dos Hoover, família que protagoniza a película, me lembrou as situações vividas pelos Burnham de "Beleza Americana". Se o filme de Sam Mendes destacava em sua fotografia tons de vermelho contrastando com tons de azul claro para demonstrar uma paixão e um sentimento de vida reprimidos e prestes a explodir dentro de um ambiente frio e aparentemente controlado, em "Little Miss Sunshine", de Jonattan Dayton e Valerie Faris, o amarelo escorre pela tela. Em uma analogia escatológica: em um filme a ferida sangra enquanto em outro ela está infeccionada com pus. Em ambos os casos, porém, a deterioração familiar serve como estopim para uma viagem em busca do auto-conhecimento e, por que não dizer, da famigerada felicidade.

Cruzando os Estados Unidos em uma kombi para inscrever a pequena Olive um um concurso infantil de beleza, a família Hoover, confinada dentro do carro, é forçada a um relacionamento constante e intenso. Cada membro do clã tem suas próprias ambições e frustrações e é obrigado a conviver com as falhas e defeitos uns dos outros: Richard, o patriarca, é um mal-sucedido motivador (ou seja lá qual nome têm essas pessoas estilo Antônio Roberto) que não admite derrotas ou falhas (“Magnólia” e “Réquiem para um sonho” são dois outros filmes que também mostram essas palestras de auto-ajuda como acobertadores de personalidades depressivas e deprimentes); Dewey é um adolescente blasé que preferiu fazer voto de silêncio a encarar as esquisitices alheias e até a própria; Frank é um intelectual especialista em Proust que tentou se matar depois de um amor não-correspondido; o avô é um viciado em cocaína insatisfeito com a própria história de vida e que falha na tentaiva de odiar sua família; Olive é uma menina precoce (no bom sentido) que busca realizar o sonho de ser uma miss infantil e Sheryl é uma mãe tentando unir todas essas atas soltas para criar um esboço de família. No entanto, por mais falidos que sejam os Hoover, todos fazem concessões para tentar realizar o sonho da pequena Olive e dão o primeiro passo para a redenção. É só quando são derrotados, seja na descoberta que Dewey faz de que não pode realizar seu sonho de pilotar aviões, seja no não reconhecimento do trabalho intelectual de Frank, no insucesso de Richard em vender seu programa motivacional ou na apresentação hilária e comovente que Olive faz durante o concurso de beleza infantil, que se descobrem cúmplices de uma mesma história. Ao perceberem que a melhor auto-ajuda é a ‘outrem’- ajuda, eles passam a viver não sob a ditadura da beleza e do sucesso, mas saboreando cada momento da vida em detrimento dos ‘concursos de beleza’ a que somos constantemente submetidos.

Um antológico exemplar da boa e velha (sétima) arte de contar uma simples e grandiosa história. Simplesmente acachapante!


Pedro Grossi




quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Riposi in pace, Luciano



Hoje o mundo se tornou um lugar menor.



Leonardo Rodrigues

sábado, 18 de agosto de 2007

The Simpsons movie


Alguns ícones culturais alcançam um estágio de credibilidade e qualidade tão elevados que eles podem simplesmente 'jogar com a camisa', sem ter a pressão de lançar uma obra prima após a outra. Nessa fase já não importa tanto o que foi feito, mas sob qual grife. Rolling Stones, Paul McCartney, Francis Ford Coppola e, claro, os Simpsons são alguns exemplares desse seleto grupo. Qualquer lançamento que estiver associado a esses nomes será um sucesso. Como tive o caráter e o senso de humor moldados pelo desenho, elogiar "The Simpsons Movie" e fazer o máximo possível de propaganda positiva é, pra mim, pagar uma dívida de gratidão.

Fui assistir à estréia com certa apreensão pela imensa propaganda criada para o longa, que já havia sido anunciado desde 1998. Afinal, quanto maior a expectativa, maior tende a ser a decepção. Mas logo na primeira cena, uma brilhante auto-referência. Durante a projeção de um filme do Comichão e Coçadinha, Homer se levanta e pergunta: "Por que pagar pra ver um desenho que podemos ver de graça na televisão?" Primeiro, porque não se vê na televisão um episódio de 90 minutos e segundo, porque a mistura de animação 3d com desenhos feitos à mão deu um visual muito bacana. Aliás, os coreanos que fizeram a animação do filme e que também são responsáveis pela animação dos episódios devem ser os últimos desenhistas old fashion do mundo, desses que ainda desenham no papel. Além disso, a versão cinematográfica possibilita certas ousadias imposíveis na televisão.


Nos primeiros anos dos Simpsons, as histórias eram verossímeis e as ironias mais sutis. Os personagens eram contidos e os episódios giravam em torno dos conflitos familiares. Ao longo dos anos, os bons roteiros foram naturalmente se esgotando e o desenho mudou um pouco de rumo para continuar no ar: A idiotice do Homer se tornou escatológica e o aparecimento de celebridades virou uma constante. O que era um acessório de luxo nos primeiros programas, virou a regra das últimas temporadas. Apesar de ter caminhado para um humor mais 'fácil', algumas características antigas se mantiveram. As instituições falidas e corruptas (escola, igreja, política, polícia etc), que sempre foram fonte pra excelentes piadas, continuam rendendo tiradas memoráveis.

Tudo isso pra dizer que o filme pareceu ser produzido pra agradar a gregos e troianos, o que quase sempre não é bom sinal. Como nenhum outro programa, os Simpsons tem fãs em todas as classes sociais e intelectuais e cada um tem seus motivos para gostar do desenho. Por isso, o desafio de fazer um bom filme sobre a série era tão grande. Sem contar que para a versão cinematográfica é preciso criar uma história que seja inteligível pra quem nunca assistiu a um espisódio. Concessões feitas para atingir um público maior geralmente resultam em produtos vazios e descartáveis. Felizmente não foi o caso. Apesar do roteiro abandonar um pouco o cotidiano banal da família (que sempre foi minha parte favorita nos episódios) para investir na ação, o filme tem piadas tão inspiradas que fazem valer cada centavo pago (como a já clássica cena das pessoas que, com medo da morte que parece iminente, fogem da igreja para o bar enquanto os bêbados correm pra igreja). As imagens repletas de referências à obras de arte, livros e filmes com certeza vão transformar o filme em um objeto cult e fazer com que o DVD seja um sucesso de vendas. Matt Groening correu o sério risco de jogar na lama uma história de quase 20 anos de sucesso, mas conseguiu realizar dignamente o sonho de colocar os Simpsons na telona. Se não foi brilhante como de costume, os Simpsons ficou acimda da média, como sempre. Shrek, South Park e outros filhotes da série vão ter que esperar um bom tempo até que o ogro amarelo Homer perca a majestade.


Pedro Grossi